Lendas e tradições

As tradições populares são expressões culturais que, como tal, exorcizam os medos, revelam as crenças, expandem as alegrias e os lutos que uma comunidade partilha e, através dos quais, congrega e identifica os seus nativos.
 
As Descamisadas
A desfolhada, também denominada descamisada, culminava o ciclo da colheita do milho e simbolizava a fartura. Era vista como um entretenimento e envolvia ranchos de amigos e vizinhos, novos e velhos. Cantava-se ao desafio e procurava-se o milho-rei, símbolo da abundância. A aguardente ou o abafado eram companheiros para toda a noite, aquecendo o espírito e o corpo.
Os rapazes, para verem as moças novas e descomprometidas, corriam de eira em eira e aproveitavam para dar um ar de graça, dançando ao som do realejo, das castanholas, da viola ou do acordeão.
 
A Matança do Porco
A matança, que se realizava ao fim-de-semana, era ocasião para uma reunião da família e amigos. No sábado de manhã, o porco era morto à faca ou cebolão. Depois de lavado e chamuscado com tojo gatinho e carqueja, era pendurado num chambaril (pau de madeira curvado) e suspenso no tecto.
Quando se abria o porco, as mulheres retiravam as tripas que, bem lavadas, serviam para fazer morcelas de arroz e gordura. No domingo, ao almoço, todos os pratos incluíam carne de porco: morcela de arroz, fritada, miudezas de porco cozidas com arroz e nabo, etc…
Ainda hoje, em algumas casas, a tradição mantém-se e continua a reunir toda a família para a matança.
 
As Britadas
Nas noites de Inverno, realizavam-se as alegres britadas, em que as raparigas e, por vezes, os rapazes, britavam os saborosos pinhões, que se levavam ao forno, a torrar ligeiramente para vender na festa de Santo Amaro. Para britar, utilizavam-se duas pedras, o calço, maior e plano de um dos lados; e a britadeira, de menores dimensões.
Não raro, as britadas eram encontros de fraternal convívio entre os jovens, em que até se iniciavam namoros.
 
Os Casamentos
Uma tradição que se perdeu ainda não há muitos anos foi a do cortejo do enxoval, que consistia no transporte das mobílias e outros objectos que faziam parte do enxoval dos noivos para a sua nova casa. As coisas maiores eram transportadas em carros de bois, em longo cortejo, seguido de duas filas de raparigas solteiras que levavam à cabeça, em poceiras de vime branco, os pertences mais leves e delicados.
 
Outra tradição que se perdeu também recentemente, e ainda ligada ao casamento, foi a de pôr arcos aos noivos. A beira do caminho que o cortejo da noiva, ou do noivo, percorria a pé ao dirigir-se à igreja, onde se ia realizar a cerimónia nupcial, as pessoas colocavam pequenas mesas, ou até mesmo cadeiras, cobertas por toalhas brancas e sobre elas dispunham alguns doces, tremoços, passas, garrafas de vinho, de licor ou, até mesmo, batatas, feijão e cebolas. Quando o cortejo passava, os padrinhos deixavam na mesa uma quantia em dinheiro que supunham paga os géneros expostos, que eram depois levados para casa dos noivos. Se a mesa tinha só coisas de comer e de beber, ali mesmo se preparavam as iguarias e se bebia um cálice de vinho fino. Por vezes, junto a estas mesas, era erguido um arco como o das festas, decorado com verdura, ramo de louro e flores campestres. A pessoa que punha o arco estava escondida em lugar onde pudesse observar se a sua homenagem tinha agradado, só aparecendo quando o cortejo já ia longe, a fim de recolher o dinheiro deixado sobre a mesa.
 
As Habitações Típicas
Há 50 ou 60 anos, “as casas eram feitas de adobe, eram baixas, caiadas de branco, todas elas com um alpendre junto da porta principal. O interior da casa era igualmente caiado de branco, tinha quatro ou cinco divisões, sendo o tecto e o chão de madeira.
O mobiliário era muito simples e, na maior parte das vezes, feito pelo próprio agricultor. A cozinha tinha uma lareira larga e baixa, uma mesa simples com três ou quatro bancos, uma cantareira que servia para guardar os cântaros com que se iam buscar à fonte e a loiça de barro. A loiça de alumínio era pendurada numa grade.
 
Havia também um armário pequenino com uma rede na porta, que era chamado «guarda-comidas» e substituía o nosso actual frigorífico.
Nos quartos, duas tábuas e dois bancos por baixo destas serviam de cama.
Anexados à casa, situavam-se os currais dos animais, as eiras e os barracões que serviam para guardar a comida dos animais, a lenha, etc.”.
 
Trajes Característicos
De acordo com documentos antigos desta região, recuperam-se os trajes usados antigamente pelas trabalhadoras do campo. Vestiam saia rodada comprida, com uma barra ligeiramente alteada (puxada para cima da cintura). O avental era escuro, com uma pequena tira no cós, também rodado, e do comprimento da saia. Usavam lenços de cores vivas, na cabeça, blusas cintadas, espartilho para segurar os seios (ainda não existia o soutien) e andavam descalças.
O traje domingueiro feminino era constituído por saia rodada comprida, com duas barras de duas filas sobrepostas. Os aventais tinham folhos ou rendas e eram bordados. As blusas também se ornavam com muitas rendas e pregas, e surgiam com a aba de fora. Os lenços eram de lã, chineses, garridos, e usavam-se por baixo do chapéu preto, ornado com penas de cor, na aba do qual se guardava o dinheiro. Os sapatos calçavam-se à entrada das festas.
Os homens usavam um barrete preto, um chapéu, camisa clara, jaleca de fazenda preta ou castanha, calça preta ou castanha e bota de atacado. Seguravam as calças com uma cinta preta, de cetim ou lã. A maior parte das vezes, os homens apresentavam-se de alforge, varapau e cabaça.
Estes trajes típicos caíram em desuso e são lembrados apenas pelos habitantes mais idosos, os homens que mantêm o uso do chapéu e colete; e as mulheres que permanentemente exibem o lenço preto na cabeça.
 
Jogos e Brinquedos Tradicionais
Para além daqueles jogos que ainda hoje perduram entre as crianças em idade escolar e que se encontram um pouco por todo o país, como o jogo do pião, a cabra-cega, o 31 (ou jogo das escondidas), o lencinho, a macaca, o berlinde e saltar ao eixo fizeram, outrora, a alegria da miudagem; alguns brinquedos construídos por si, como o arco feito com aro de roda de bicicleta, os carrinhos com roda de madeira e cabo de cana, sendo os de luxo equipados com um travão que se accionava enrolando um cordel num pau que atravessava a cana à altura do peito do condutor eram também motivo de grande imaginação.
Entre os adultos, no século XIX, era vulgar o jogo do pau, mais como arma de defesa e ataque, do que como entretenimento. Não havia feira ou romaria onde os homens não procurassem demonstrar a sua destreza e agilidade. E houve na Ortigosa um afamado jogador de pau, de seu nome José Braz Arroteia, homem de corpulência extraordinária, que o ajudava a ser invencível e temido pelos seus opositores. A sua fama chegou longe, tendo até dado lições de jogo do pau, em Salvaterra, ao rei D. Miguel.